28 de fevereiro de 2015

{desabafo}

 
 
Parem de me tentar enlouquecer com vestidos que mudam de cor cada vez que olho para eles.
Se querem mesmo saber, tanto dá que seja branco e dourado ou azul e preto. É feio de qualquer das maneiras, ok?
 
{e agora vou para a banheira com a minha Barbie Sereia cujo biquíni desaparece quando molhado...}

Um poema de Flavio Caamaña


a cabeça é a parte mais pesada do corpo
nela podemos guardar frigoríferos e geleias
cem quilômetros de paisagem e preconceito
sendo possível espirrar cuspir engolir sorrir
e sustentar cerca de 150.000 fios de cabelo...
ela acomoda um cérebro de um quilo e meio
queima dúvida e certeza por nada de cinzas
abre-se nela uma boca e salta pelos olhos
um punhado de riqueza num dente de ouro
uma pobreza um desprezo num duro murro
entende o que é lentilha e o que é gordura
administra vinte e dois ossos extremamente
em harmonia com as orelhas que só ouvem
compactua com a língua e o apuro obsceno
capaz de cortar desaforo e computar gozo
a cabeça é a parte mais pesada do corpo
nela o café é fervido a carne é amaciada
nela aniquilada a bondade e a simetria
nela um barco de água é muito dinheiro
e da cabeça ao peito se abre um buraco
 

26 de fevereiro de 2015

{a banda sonora do dia}

 

 
Epá, inventei uma coreografia muito marada para isto.
A bailarina perfeita para a coisa seria a Irina Akulenko...

24 de fevereiro de 2015

Fragmento (de Giovanni Papini)

 
 


desabafo (do corpo-porco)

 

Como se não bastasse o puritanismo extremo do Facebook, onde como sabemos a imagem de uma mãe a amamentar o filho é encarada como sexo explícito, agora aparece a Blogger com uma nova politica de conteúdo adulto.
 
O que é para a Blogger conteúdo adulto? Segundo eles, a nudez que não tenha "um benefício público importante, por exemplo, em contexto artístico, educacional, científico ou de documentário". Ou seja, o sexo pode exprimir tudo excepto a sua própria natureza sexual e tem de ser sublimado de forma a alimentar a civilização. Pois deixem-me lembrar, toda a gente tem uma natureza sexual. A Marilyn Monroe que não era estúpida dizia "o sexo faz parte da natureza. Eu só sigo a natureza". O direito de cada a exprimir a sua natureza sexual se assim o desejar parece-me só por si um beneficio público importante. Quem quer viver numa sociedade de reprimidos sexuais? 
 
Há dias uma amiga que trabalha em tradução contou-me que teve acesso a originais de obras literárias que tinham sido revistas pela censura política  e percebeu que muitos dos fragmentos amputados eram apenas referências ao corpo. E nem sequer eram conteúdos de índole explicitamente sexual, eram frases como "ele transpirava" ou "trabalhava em tronco nu". Mas lembravam que o corpo existe, e o primeiro passo para dominar o outro, mesmo politicamente, é vedar-lhe o poder sobre o seu próprio corpo. Se o teu corpo não é teu, então pode ser facilmente colonizado por mim.
 
Toda a gente tem um corpo por debaixo da roupa, e esse corpo é a única coisa que cada um verdadeiramente tem. Ele é o nosso hardware, a única forma de contacto da mente com o mundo enquanto não pudermos contar a com a telepatia e a telecinésia. Sem o corpo, o corpo inteiro, nada do que somos se manifestava. É obra! Só por isso já o devíamos venerar.
 
Gostava mesmo de viver numa sociedade em que o corpo e os seus desejos não fossem constantemente vistos como algo sujo. Provavelmente não viverei para ver isso, mas até lá não reprimam o pessoal, pá!
 
 

{querido diário}

Sonhei que o tempo me escorria das mãos e que tinha o carro preso num parque apinhado de carros mal estacionados.
Eu não conduzo, era um homem que estava ao volante e que me dizia que não era possível sair dali. Então saltei para o lugar do condutor, acelerei ao máximo e passei por um espaço impossível que me levou para outra dimensão. O carro caiu a pique entre ruídos e grafismos de zx  spectrum até voltar a encontrar a estrada. Por fim consegui atravessar a ponte em segurança. Acordei.
Quando voltei a adormecer sonhei com o Mumia Abu-Jamal.
Com Mumia Abu-Jamal! Estamos em 2015, alguém ainda se lembra que Abu-Jamal continua preso?
(Sinto-me como se tudo em mim gritasse liberdade)

16 de fevereiro de 2015

{anita mamã}

-Ó mãe, olha o que me ensinaram na escola: pata, peta, pita, pota...
-Pára já com isso, não gosto nada que digas essas coisas!
-Mas nem me deixaste acabar!
-Vá, acaba lá...
-Pata, peta, pita, pota, uma velhinha a andar de mota.

{se o objectivo era fazer sentir-me estúpida, conseguiu}

14 de fevereiro de 2015

Fica cada vez mais frio e depois totalmente escuro

"Concentro-me em equilibrar a pressão,
os meus olhos estão
fechados, a máscara
cheia de água,
e percebo que
estou a descer
pelas mudanças de pressão.

Estou apertado,
esmagado,
mas gosto;
já não me magoa.
Ouço o som do mecanismo
a descer pela linha.

Fica cada vez mais frio
e depois totalmente

escuro."


Isto foi a resposta do mergulhador apneísta Loïc Leferme a um jornalista que lhe perguntou como era a sensação de mergulhar a tão grandes profundidades.
(mas podia ser outra coisa qualquer)


p.s.1: Obviamente alterei o grafismo da resposta de Leferme. Ele tinha fôlego suficiente para dizer tudo de seguida, eu é que fico sem fôlego quando interiorizo as suas palavras.

p.s.2: Leferme morreu em 2007 num acidente de treino.