30 de Agosto de 2014

I'm a tulip in a cup, I stand no chance of growing up








Um poema de Roger McGough


Cinco truques para te ajudar a atravessar uma floresta negra em segurança noite dentro

 1. Assobia uma melodia que o teu pai tenha assobiado quando eras criança

2. Cruza os dois primeiros dedos da tua mão esquerda

3. Se perderes de vista a lua guarda-a na retina da tua mente

4. Imagina as cores que te cercam quando esperas o primeiro beijo da manhã

5. Traz uma Kalashnikov no porta-luvas.


(daqui)

27 de Agosto de 2014

Histórias de amor do caneco (juliette gréco & miles davis)


(tal como contada pelo José Luís)




[sobe o pano. é abril em saint-germain des près, na paris de 1949]

julieta: eu nunca tinha visto um homem assim tão belo. e não voltei a ver. ele tocava e eu observava-o de perfil: um deus egípcio. foi michèle, a mulher de boris vian, quem mo apresentou e eu fiquei fascinada. ele tinha essa beleza e irradiava génio. era força e estranheza ao mesmo tempo. era a diferença e a modernidade do que ele tocava. eu tinha vinte anos e entendia aquela liberdade. tudo era partilhado porque não tínhamos meios, mas estávamos apaixonados. penso que ele ficou algo surpreendido por isso, pela minha liberdade e pela minha ausência de opinião e perspectiva sobre a questão racial. depois, não sei, talvez a música fosse mais forte, ele partiu.

romeu: a música tinha sido toda a minha vida e não tinha olhos nem tempo nem espaço para mais nada, até ao meu encontro com ela. ela trouxe-me isso, o que era gostar de algo que não a música. foi a primeira mulher que amei como um ser humano, num plano de liberdade e igualdade. ela era tão bela. eu não falava francês, ela não falava inglês: comunicávamos por expressões, por linguagem corporal. e depois já só falávamos com os olhos e os dedos. não havia lugar para o falso. durou algumas semanas e depois parti. mais tarde jean-paul sartre perguntou-me porque não tínhamos casado. respondi-lhe que não queria que ela fosse infeliz.

[cai o pano]

{o jogo do anel}

 


22 de Agosto de 2014

Sabedoria Zappiana



 
“If you end up with a boring miserable life because you listened to your mom, your dad, your teacher, your priest, or some guy on television telling you how to do your shit, then you deserve it.”

Frank Zappa

(um autocarro cheio de gente vazia)



Estatísticas


Por cada homem enfurecido há sempre
dois ou três que o acalmam com palmadinhas nas costas,
por cada chorão, muitos mais limpadores de lágrimas,
por cada homem feliz, uma profusão de infelizes
a querer aquecer-se no calor da sua alegria.

E todas as noites pelo menos um homem
não consegue encontrar o caminho de casa
ou a sua casa mudou-se para outro lugar
e ele vagueia pelas ruas,
supérfluo.

Uma vez estava com o meu filho pequeno na estação
e um autocarro vazio passou por nós. O meu filho disse:
“Olha, um autocarro cheio de gente vazia.”

Yehuda Amichai

17 de Agosto de 2014

{querido diário}

O Camaron De La Isla lamenta-se em loop, diz que já não pode aguentar, que não pode viver desta maneira, porque não quer, ainda que Deus queira.
E eu continuo a desenhar e desdenho: junta-te ao clube.
E ele entra pelo desenho adentro e sussurra, olhar torturado que mete medo: junta-te tu ao meu.




I, robot

 
 
esta ilustração é absolutamente ♥