22 de maio de 2015

Encontrado dentro de um livro

 
 
Encontrei  o amor-perfeito que alguém esqueceu dentro de um livro.
Em França, estas flores chamam-se pensées (pensamentos) e ofereciam-se como símbolo de um amor forte que nunca cairá no esquecimento.
Posso ser injusta ao escrever que "alguém esqueceu". Provavelmente alguém guardou, ou alguém escondeu. Sempre.
Passou o tempo, a flor perdeu a cor, quem ali a colocou pode já nem estar vivo, mas alguma coisa cruzou mais longe o tempo.
 

Fragmento (do Apocalipse)

 

19 de maio de 2015

{a banda sonora do dia}

 

 
 
Caravelas, caravelas
mortas sob as estrelas
como candeias sem luz
E os padres da inquisição
fazendo dos vossos mastros
os braços da nossa cruz

 
(Carlos de Oliveira, 1942)

16 de maio de 2015

A questão Martine

Desconfio que sou a única que não está nada preocupada com isto.
Aliás, agora que a miúda irritantemente perfeita mudou o nome para Martine, eu serei finalmente Anita, the one and only. [inserir aqui gargalhada maléfica]

Sem título

 

14 de maio de 2015

desabafo (da oração)

Por vezes, quando me sinto mais perdida ou próxima do desespero, dou por mim a recitar baixinho the laughing heart  ou versos do roll the dice.
 
Não sei se o Bukowski terá alguma vez desconfiado que poemas seus seriam um dia as orações de alguém.

12 de maio de 2015

{querido diário} - os desertores

Todos os dias passam na minha rua um homem e um cão.
Nenhum deles usa trela e têm qualquer coisa de paciente, de ausente, de silencioso.
O passeio é estreito. Por  vezes o cão vai à frente e o homem segue-o, outras vezes é o homem quem avança.
Não consigo identificar nenhum deles como chefe da matilha.
São como que um pequeno bando de desertores.

9 de maio de 2015

{querido diário}

Ao tentar ver um filme no meu computador o meu filho apagou o conteúdo de um ficheiro de texto em que eu andava a trabalhar há semanas.
Fiquei alguns segundos a olhar extasiada para o ecrã vazio iluminado a branco. Pareceu-me infinitamente mais belo que qualquer coisa que eu pudesse ter escrito. Ele deve ter estranhado a minha imobilidade, porque longe onde estava ouvi perguntar "está tudo bem".
Estava tudo bem.
Fechei a janela do Windows, o computador perguntou se queria guardar as actualizações, respondi que sim.

29 de abril de 2015

Anita, Ali Babá e os quarenta ladrões

Uma das coisas deliciosas de ser mãe é ter um motivo para reler enquanto adulta e em voz alta os contos que me leram em criança.
 
Ontem li ao Simão o Ali Babá e os 40 ladrões.
A minha avó leu-me esta história vezes sem conta, neste mesmo livro que agora é do meu filho. Ela tinha muito talento para contar e por mais vezes que a ouvisse seguia-a sempre em constante suspense. Gritava sempre para dentro "Não queiras saber o segredo!" quando a gananciosa mulher de Cassim untava a medida dos cereais para saber o que andava o cunhado a medir e visualizava em pormenor o tesouro no interior da caverna e a dança do punhal da escrava Morgiana (a verdadeira heroína da história, astuta, atenta e sempre pronta a salvar Ali Babá).
Sempre gostei muito do momento em que Cassim se esquece das palavras mágicas e em vez de Abre-te Sésamo diz Abre-te Cevada. Quem conta um conto acrescenta um ponto e eu gosto de acrescentar cereais, de forma a ampliar e prolongar o desespero de Cassim: Abre-te Trigo! Abre-te Centeio! Abre-te Aveia!. O Simão, que já sabe ler, reclama sempre destas liberdades narrativas.
 
No entanto o que mais me chamou a atenção nesta releitura adulta foi uma frase proferida por um dos ladrões.
Morgiana leva um sapateiro vendado a casa de Cassim a fim de coser o seu cadáver esquartejado. No dia seguinte um dos ladrões procura o sapateiro para que ele lhe diga qual era a casa. O sapateiro não consegue responder porque não viu, estava de olhos vendados.
Então o ladrão diz-lhe "Vou tapar-te os olhos para que deste modo te possas lembrar do trilho que percorreste ontem".
 
Vou tapar-te os olhos para que deste modo te possas lembrar do trilho que percorreste ontem.
Esta frase não me sai da cabeça.

26 de abril de 2015

{querido diário} - Ms. MacGyver Barriguinha de Manteiga




Quando me mudei para esta casa decidi colocar nas portas as maçanetas antigas que ao longo dos anos fui juntando. Hoje roguei pragas a essa ideia quando a porta da cozinha se fechou com a corrente de ar e reparei que a maçaneta que me permitiria sair rodava em vazio.
Fiquei logo em stress quando me vi ali trancada, sozinha em casa, sem o telemóvel e pus-me a olhar à volta, tentando arranjar solução. Como sou uma fácil acalmei-me assim que vi pão de Mafra em cima da bancada.

Bem {anita}, até foi sorte ficar trancada na cozinha, pelo menos tens comida, pensei.

Então comi pãozinho mole com manteiga, que é uma coisa que me deixa logo bem disposta, ainda bebi leite com chocolate e acabei por desmontar a fechadura com a ajuda de uma faca e uma colher de sobremesa.

Vou-me safando. O que é preciso é calma, paparoca e, à falta do canivete suíço, um faqueiro baratucho do IKEA.

Tenho a certeza de que a deve ter sentido no seu sono (fragmento de Knut Hamsun)

 


"Mistérios"
Knut Hamsun
ed. Cavalo de Ferro

22 de abril de 2015

Têm medo de descobrir até que ponto resistem

-Falou de liberdade económica. Um escritor precisa dela?
 
-Não. Um escritor não precisa de liberdade económica. Precisa apenas de um lápis e de algum papel. Nunca tive conhecimento de nada de bom na escrita que tivesse resultado da aceitação de um presente ou de dinheiro. Um bom escritor nunca se candidata a uma fundação. Está demasiado ocupado a escrever qualquer coisa. Se ele não for um escritor de primeira engana-se a si próprio dizendo que não tem tempo ou que lhe faltam as condições económicas necessárias. A boa arte pode surgir vinda de ladrões, de contrabandistas ou de moços de estrebaria. As pessoas, de facto, têm medo de descobrir até que ponto aguentam a adversidade e a pobreza. Têm medo de descobrir até que ponto resistem. Nada pode destruir um bom escritor. A única coisa que pode afectar um bom escritor é a morte.
 
 
William Faulkner, Entrevistas da Paris Review (Tinta da china, 2009)
 
(descaradamente pilhado do facebook da Catarina)