6 de julho de 2015

Fragmento (de Tonino Guerra)

Tenho a impressão que o consumismo nos conduz a grandes perdas, ao mesmo tempo que nos sufoca de objetos. Para mim, refugiar-me no passado significa reencontrar os prazeres da pobreza. A pobreza ajuda à fantasia. Na pobreza vive-se sob uma chuva de desejos suspensos.
 

23 de junho de 2015

{bom dia coraçõezinhos de robot}

Na festa de final de ano da escola do meu filho os alunos do 4º ano apresentaram uma curta metragem de animação criada por eles.
O tom era de ficção cientifica e a certa altura dizia-se que no futuro, os anjos, os robots e os aliens seriam todos amigos.
Sorri. Também imagino o futuro assim.

Desabafo (das lágrimas)


Ela lavou-lhe os pés com as suas lágrimas e secou-os com os seus cabelos  (Lucas 7-38)
 
Uma frase tão simples e com tanto potencial erótico.
Adorava ter sido eu a escrever isto... 

lacrimatorius

 
There is a sacredness in tears. They are not a mark of weakness but of power. They speak more eloquently than ten thousand tongues. They are the messengers of overwhelming grief, of deep contrition, of unspeakable love.
Washington Irving
 
 
 
 
Na Roma antiga, as lágrimas das carpideiras eram recolhidas em frascos e enterradas junto dos mortos.

 
No período vitoriano os enlutados recolhiam as suas lágrimas em garrafas com rolhas que permitiam que estas fossem evaporando. Quando já não houvesse lágrimas na garrafa, era sinal que o período de luto tinha acabado.

 
Durante a Guerra Civil Americana, os soldados deixaram frequentemente às suas esposas uma garrafa ornamentada na qual elas podiam armazenar as suas lágrimas. Se o homem sobrevivesse à batalha, a humidade armazenada era um indicador de devoção e amor de sua esposa. Se morresse, a garrafa seria colocada num lugar de honra.

19 de junho de 2015

15 de junho de 2015

{querido diário}

Ela confessou-me que antes de me conhecer pensava que as coisas que eu contava aqui no blogue eram inventadas por mim.

(Como se a minha imaginação me chegasse para criar a minha vida!)

12 de junho de 2015

{desabafo}

Hoje fui abordada por um desconhecido que me felicitou pelas minhas sandálias "que lhe fazem os pés tão bonitos".
Com piropos atirados de cima do andaime posso eu bem, estes adoradores de pés é que me fazem sentir nua...

8 de junho de 2015

A mente que se torna suja na juventude nunca mais pode ser limpa

Quando Mark Twain escreveu Huckleberry Finn, muitos críticos foram desfavoráveis por acharem que Huck dava um mau exemplo à juventude e tanto este livro como Tom Sawyer foram banidos de várias bibliotecas americanas.
Um bibliotecário que era contra a proibição escreveu a Mark Twain dando a sua opinião. Esta foi a resposta do escritor:
 
" Prezado senhor: Fiquei muito perturbado com o que o senhor diz. Escrevi Tom Sawyer e Huck Finn exclusivamente para adultos, e sempre me aflige saber que meninos e meninas têm acesso a eles. A mente que se torna suja na juventude nunca mais pode ser limpa. Sei disso por experiencia própria e, até ao dia de hoje nutro um rancor implacável contra os tutores desleais da minha infância, que, não só permitiram, como me compeliram a ler até ao fim uma Bíblia não censurada, antes que eu tivesse 15 anos. Ninguém pode fazer isto e ter depois hábitos irrepreensíveis.
Com toda a sinceridade, desejaria poder dizer uma palavra ou duas que atenuassem e defendessem o caracter de Huck, mas na verdade, em minha opinião, ele não é melhor que os de Salomão, David e o resto da irmandade sagrada."
 
Quando era miúda, Tom Sawyer era a criança que eu queria ser mas não era. Mais tarde tarde percebi que aquela criança era Samuel Clemens e apaixonei-me por ele.
A mente que se torna livre na juventude nunca mais pode ser agrilhoada.
 
 

 

7 de junho de 2015

{a banda sonora do dia}

 

 
Tinha acabado de abrir a porta de casa vinda de uma longa caminhada sob um sol demasiado forte. O telefone tocou e eu não tinha ainda fôlego para palavras. 
Do outro lado ninguém respondeu ao meu Estou? Pedro?
Tocava apenas esta música.

6 de junho de 2015

Um poema de Bertold Brecht



Os Tempos Modernos


Os tempos modernos não começam de uma vez por todas.
Meu avô já vivia numa época nova.
Meu neto talvez ainda viva na antiga.

A carne nova come-se com velhos garfos.

Época nova não a fizeram os automóveis
Nem os tanques
Nem os aviões sobre os telhados
Nem os bombardeiros

As novas antenas continuam a difundir as velhas asneiras.
A sabedoria continuou a passar de boca em boca.



Bertold Brecht; POEMAS
Colecção Forma; Editorial Presença, 1976