31 de Outubro de 2014

30 de Outubro de 2014

{anita mamã}

Mostro ao meu filho os dicionários Lilliput que a Laura me ofereceu.

- Que giro! Que pequeninos! Posso pegar?
- Com cuidado, são muito antigos, têm quase 60 anos...
- 60 anos é tão pouco!
- Pouco?! tu só tens 7...
- Sim, mas como sei  fazer contas com números muito compridos, para mim 60 é pouco, percebes?

(quanto maior o conhecimento que temos do mundo, maior capacidade temos de relativizar : esta sim, é a verdadeira teoria da relatividade)

-Vá, vamos ler uma história para irmos dormir.
-Eu queria que me lesses esses livros!
-Mas são dicionários, não têm história...
-Lê à mesma!

E foi assim que passei o serão a ler um dicionário de português-alemão, com a voz mais  soporífera que consegui. E ainda assim só adormeceu na página 42, algures entre "ajuramentar" e "alambique"...

26 de Outubro de 2014

sms's com notícias de naufrágios

"Acabei de entornar uma chávena de leite de arroz com café sobre os jornais, livros e revista Granta... Que imagem desastrosa. É impressionante como o papel absorve tudo em segundos. A minha mesa da cozinha parece um naufrágio de livros e jornais... lembrei-me de ti. Como andas?"

{fazes-me tanta falta}

{querido diário}

A letra da canção que a minha mãe me cantava sempre em pequenina (a primeira que me lembro de saber de cor) ao contrário da maior parte das canções infantis, fala na primeira pessoa.
É cada um que canta que diz que esqueceu os avisos da mãe sobre brincar a correr e que por isso foi infeliz, com  feridas no joelho e arranhões no nariz. E a canção termina com uma decisão aparentemente ajuizada: faço agora tudo quanto a mamã me diz.
 
Hoje falei disto com a Laura, que primeiro não se lembrava de que música estava eu a falar mas que depois de ouvir exclamou: Ahhh! Cantavam-me isso no colégio, mas em vez de "mãe" diziam "Jesus".
 
Pois, era mesmo aí que eu queria chegar...



22 de Outubro de 2014

To paint is to love again

 
 


 

A criança injustamente castigada (um poema de Sharon Olds)


A criança grita no quarto. A raiva
lateja-lhe na cabeça.
Sofre mutações como o metal sob forte
pressão a altas temperaturas.

Quando esfriar e sair por aquela porta
não será a mesma criança que entrou a correr
e bateu com ela. Acrescentou-se uma liga. Agora
há-de rachar em riscos diferentes quando lhe baterem.

Está mais forte. A longa adulteração
começou esta manhã.




Sharon Olds; Satanás Diz; ed. Antígona
tradução de Margarida Vale de Gato

16 de Outubro de 2014

caminhar de olhos fechados


O mais importante na vida
É ser-se criador – criar beleza.

Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir a voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.

E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.


(António Botto)

15 de Outubro de 2014

{a banda sonora do dia}

 

 
Claro que há génios. Este tipo era um génio.

{anita mamã} - a lógica de Xan-Pô

O Simão vai ao banho.

- Sabes qual é o shampoo e qual é o gel de banho não sabes?
- Sim, aquele frasco é shampoo e o outro é gel de banho.
- Muito bem... Vá, despacha-te...
- Mas às vezes uso ao contrário.
- ?
- Mas o que é que interessa? O que importa é meter uma coisa na cabeça e outra no corpo. Se metermos o shampoo e o gel de duche no mesmo sitio o resto não fica lavado.

(céus, ainda nem são 8 da manhã...)

14 de Outubro de 2014

{desabafo} - vista de rio

Em frente ao minúsculo T0 onde vivo há um jardim público e ao fundo o Tejo.
Todos os dias interrompo o trabalho para passear pelo jardim.
Duas árvores deste jardim, as maiores, estão a morrer porque alguém lhes perfurou o tronco junto à raiz para aí depositar veneno. Alguém que queria ver o rio como quem vê televisão: com o rabo bem instalado nas almofadas do sofá, sem as interferências verdes do arvoredo.
Há anos que me questiono acerca da obsessão de alguns lisboetas com a vista de rio. O rio desaparece quando não estamos a olhar para ele?  Entendam-me, cresci numa cidade sem água. Ás vezes nem na torneira havia água. Aqui há água por todo o lado e isso não chega. É preciso olhar para ela. É preciso vê-la assim que se abrem as torneiras e as janelas.
O rio é bonito, sim, é feito de nós e de árvores, tudo água, tudo ligado. É por isso que quem envenena egoisticamente uma árvore por causa do valor imobiliário da vista de rio, envenena o rio e envenena-se a si mesmo.  Para saber como isto é verdade basta estar no mundo como na nossa sala em vez de encher a sala lá de casa com hologramas do mundo.
Caramba, para chegar ao rio bastava atravessar o jardim e descer umas escadas. O rio corre, nós movemo-nos, só as arvores não podiam ir a lado nenhum.


13 de Outubro de 2014

{desabafo}

O mundo não precisa de mais feministas. O mundo precisa é de mais humanistas.
E acima de tudo precisa de indivíduos humanos verdadeiramente humanos e mais evoluídos, conscientes da sua condição animal.


11 de Outubro de 2014

{querido diário}

Hoje, vinda do nada, uma incrível saudade de ver bonecas arder no alto de postes como nas noites de S. João da minha infância e o desejo muito aceso de saltar uma fogueira.